“A segurança ou insegurança psicológica”

Muito se tem falado, nas mídias sociais e nas organizações, sobre a “segurança psicológica”. Podemos encontrar livros, pesquisas e treinamentos sobre o tema. Acredito que esteja mais do que a claro a importância desse tema para a criatividade, produtividade e inovação nos negócios.


A escritora e professora de Harvard, Amy C. Edmondson, investiu dois terços do seu livro “A organização sem medo” somente para aprofundar o impacto da segurança psicológica nos resultados e sucesso sustentável das organizações. Para ela, isso acontece “quando as pessoas sentem que seu local de trabalho é um ambiente onde podem se expressar, dar ideias e fazer perguntas sem medo de serem punidas ou envergonhadas.” Parece tão simples e óbvio que a gente fica com aquela sensação “é sério isso?”.


Amy chama nossa atenção para a possibilidade da falta de segurança psicológica poder provocar erros e decisões desastrosas, que muitas vezes custam dinheiro e até vidas, em todos os tipos de negócios. A segurança psicológica tem a ver com a franqueza nas conversas, com tornar possível a discordância produtiva e a livre troca de ideias. Aí muitos leitores/gestores já pensam “tá fácil, isso eu já proporciono na minha equipe” ...só que não...


Talvez em nossa atual forma de pensar no trabalho e suas relações, tenhamos ainda a crença mais tradicional de que a hierarquia e o poder ditam as regras a serem seguidas. Ouvi de um trainee recentemente: “como ele é um superintendente preciso entender o que ele quer para fazer exatamente o que deseja e ter sucesso na minha entrega”. Foi fácil perceber a insegurança e ansiedade que essa fala, como a própria situação, traz consigo. Nem sempre as novas gerações têm conseguido trazer novos modelos de trabalho e relacionamentos para suas organizações e, muito menos, segurança psicológica.


Indo para o subsolo dessa reflexão, no livro “Sociedade do Cansaço”, Byung-chul Han explora a mudança radical que temos vivido nas últimas décadas, quando transitamos de uma “sociedade disciplinar”, onde as relações de trabalho eram pautadas em conformidade, lealdade e previsibilidade, para uma “sociedade do desempenho” guiada pela produtividade, agilidade e incerteza. Nesse cenário ele vê a agudização da hiperatividade, porque não podemos parar, temos que ser criativos, destacados, um ponto fora da curva e resilientes. Tudo isso para nos sentirmos incluídos e valorizados, e na ilusão de que agora somos donos das nossas carreiras, “ao contrário, estamos numa sociedade do trabalho na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Assim somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor.”


Encontrar e manter a segurança psicológica nesse cenário é uma tarefa, para lá de desafiadora, permanente, porque na dinâmica da comunicação e conexão humana, o minuto seguinte pode ser devastador e criar um abismo no qual podemos sucumbir novamente à obediência, ao silêncio e, pior, à concordância subserviente...e aí aquela sensação de “tá vendo, não falei que o time está alinhado?!”.


Quando penso sobre esse tema, me lembro muito de Jacob Levy Moreno, o pai da psicologia social, cuja teoria sobre as etapas do desenvolvimento da personalidade, pelas quais todos nós humanos passamos, é iniciada pelo reconhecimento de si próprio (nas primeiras semanas de vida), ampliada pela identificação dos outros, passando por relacionamentos em pares, trios, até a circularização. Somos tão mais maduros e equilibrados quando conseguimos lidar com maior gama e complexidade de relacionamentos, com autenticidade e abertura, sem perdermos a consciência de quem somos e dos outros. Tudo isso para salientar que, a chave do nosso amadurecimento é sair do relacionamento em pares, onde há confiança, conforto e segurança, para as relações em trios e grupos, onde perdemos o controle sobre o que as pessoas pensam, sentem ou mesmo as maneiras como irão reagir conosco.


A segurança mesmo, como um “substantivo feminino do que está seguro; afastamento de todo perigo; demonstração de certeza, de convicção ou comportamento repleto de firmeza, de autoconfiança;” é acima de tudo um ato de coragem e fé, uma aposta na qual temos que estar prontos para receber e acolher as consequências, sejam elas satisfatórias ou não. Outro dia um palestrante que foi criticado por um dos ouvintes disse: “nem Jesus agradou todo mundo, por isso não tenho expectativa de agradar todos vocês, mas somente de contribuir um pouco com minhas ideias”.


Para construir a segurança psicológica, primeiro temos que verificar nossos alicerces e bases, sentimentos e movimentos. Depois, podemos olhar para nosso ambiente, desafios e relacionamentos profissionais para então estabelecer nosso plano. Segundo Amy há uma trilha a ser seguida: preparar o terreno, com propósito e combinados claros; ativar a participação, por meio de humildade, conexão, confiança e fóruns; e responder produtivamente, com valorização, comemoração e consequências coerentes.


Você líder está pronto para fomentar a segurança psicológica em seu ambiente?


Escrito por Aliete Traviztki – Consultora da DorseyRocha Consultoria. Formada em Serviço Social e Mestrado em Filosofia Social além de Especialização em Recursos Humanos e MBA em Gestão Estratégica.

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